naminha câmera de fotos, você aparece vestido de gorro e camisa cor cinza
você sorri pra mim, você me olha embaraçado
você acha graça de ser meu modelo (você achou graça desde o princípio)
eu olho pra você de volta e alguma coisa me faz querer te dizer:
é uma sensação estranha você não ser mais meu namorado
estranho porque alguma coisa realmente mudou
e não porque não nos vemos há algumas semanas, mas porque a sensação familiar já foi um pouco embora
e eu não queria que ela fosse
olho pra você, pro seu nariz curvo e pro cedro acima dele (em linhas que te costurei sem imaginar onde estaríamos agora), e nós realmente terminamos um namoro de anos compridos
de alguma forma, não achei que fosse acontecer
achei que passaria tanto tempo do seu lado, decorando paredes e murmurando não-palavras no seu ouvido (te ouvindo sorrir de mim e me sentindo absolutamente confortada pelo mundo)
mas você deu o passo adiante -- acho que no fundo eu nunca teria coragem
e agora não adianta contar com você para contar piadas pelo telefone; não posso imaginar que vamos dançar forró às terças e quintas, e que no próximo natal você estará sentado à mesa gesticulando para meu pai
(a cena abaixo de minha janela se tornou triste. a luz amarelada e a pequena árvore ainda me fazem lembrar um filme querido, mas a aula de dança parece me quebrar um sonho)
e eu já sinto falta de você. sem reparar, todas as minhas malas vinham se aprontando sozinhas, planejando em segredo me isolar em um castelo na Baviera... por anos, e anos, e anos...
(oito anos atrás e nosso casamento já estava armado em um altar pagão)
eu te amo, henrique
hoje só queria te dizer isso